Estoque e tesouro são a mesma mercadoria vista por contadores diferentes. Um calcula quanto custa deixá-la parada. O outro, o que o tempo fez com ela enquanto ninguém olhava.
Para o público, o ponto era uma loja. Para ele, era uma vitrine de atacado, e a ideia vinha de cinco anos antes. Quando começou a vender óculos, entrava em lojas e salões de cabeleireiro apresentando-se como representante de uma importadora de design italiano, atrás de quem aceitasse venda consignada. Abria a mala de mostruário, juntava gente em volta, e as clientes o convenciam a vender ali mesmo, um par para cada uma. Numa tarde o mostruário ia embora. Naquele tempo, ele fingia atacado para vender no varejo. Com o vintage, passou a fingir varejo para vender no atacado. Diversos negócios saíram daquele ponto. O mais inusitado entrou pela porta: uma compradora chinesa, hospedada num hotel da rua e acompanhada de segurança. Comprou mais de mil peças escolhidas a dedo, pagou em dólar e levou o lote para Nova York.
O vintage tinha outro público e outra regra. Óculos de linha se vendiam por quantidade. No vintage, quanto mais exótico e exclusivo, melhor.
Bastava sair da galeria para ver o resto da operação. Virando da Oscar Freire e subindo na Augusta, a primeira galeria à esquerda vendia os óculos dele. Dois quarteirões acima, as lojas de vintage dos dois lados da rua também. Do outro lado da Paulista, as lojas da Augusta revendiam os mesmos óculos, e no shopping da esquina, o vendedor das exposições de domingo também. Aos sábados, as lojas em volta da Praça Benedito Calixto. Na Vila Madalena, as mais descoladas, entre dezenas de bares. Mais tarde vieram lojas de outros estados. Nos eventos, perguntavam por onde andava. Andava em todos esses lugares ao mesmo tempo, vendendo no atacado a lojistas que ofereciam os óculos com a marca deles, e a conta era simples. Para estar em tantos lugares, era preciso variedade, quantidade à pronta entrega e produto exclusivo, e ele tinha os três por causa de uma caixa de sapatos com dezoito amostras. O nome dele saiu do balcão e foi trabalhar dentro da marca dos outros.
Depois vieram outros lotes, partidas somadas ao que já existia. Com o tempo a direção se inverteu, e passaram a procurá-lo para oferecer mais vintage e new old stock, peças da época que nunca foram usadas. Ele nunca soube direito como o encontravam.
Escolher ficou para depois e não terminou. Mais de oitocentos modelos e suas variantes de cor, separados, inspecionados, higienizados, fotografados e reembalados fase por fase, da pia da cozinha até hoje. Passaram pelo acervo o aviador tradicional, os espelhados e os de lente clássica, os gatinhos dos anos 60, os oversized setentistas masculinos e femininos, os californianos dos anos 80, os flat top, os esportivos wrap, os minimalistas dos anos 90 em metal e acetato, o social masculino, o da vovó, o das crianças e até o flexível sem nenhuma peça de metal, feito para o bebê. Uns giram o caixa, outros dão estilo à loja e esperam o cliente certo. Com tempo, método e com o público certo, todo modelo vende.