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VINTAGE

Dezoito amostras.Cinquenta mil óculos.

Alessandro Damasceno, São Paulo

PEGAR OU LARGAR

Dezoito óculos numa caixa de sapatos. Foi o que Alessandro Damasceno viu na véspera de Natal de 2009. Por trás deles havia mais de oitocentos modelos e cinquenta mil peças, sem meio lote, sem fração e sem prazo. Pegar ou largar. Quem vende cinquenta mil peças de uma vez não está vendendo óculos, está encerrando um assunto.

Até ali ele nunca tinha vendido um par de óculos vintage. Vendia óculos de linha, o que o mercado oferecia, fornecia a redes de lojas de shopping e trabalhava nos eventos de moda atrás de um balcão de alumínio e chapas de acrílico. Estacionada logo atrás, uma Kombi 1966 customizada por ele servia de cenário e de transporte. Foram mais de 120 eventos assim. Cada um pagava o lote de óculos do seguinte, e houve um tempo em que o estoque inteiro cabia numa caixa com duzentas e cinquenta peças. Mas naqueles mesmos eventos começavam a brotar novas marcas e outros vendedores, e ele procurava alguma coisa que o diferenciasse mais ainda. Para isso, duas mil peças teriam bastado. Apareceram cinquenta mil. A regra era comprar depois de vender. A caixa de sapatos pedia o contrário.

Ele apertou a mão do vendedor.

Não tinha o dinheiro. Pediu uma semana para resgatar um investimento que não existia e saiu dali dirigindo para o banco, com o celular dividido entre o gerente e os investidores que conhecia. De que lado viria o dinheiro pouco importava. Na mesma tarde o capital estava levantado. Uma semana depois, o vendedor recebeu à vista. O banco chama isso de crédito, palavra que vem do latim crer. Qualquer um escolheria antes de comprar. Ele comprou antes de escolher.

Numa Kombi cabem onze mil óculos. Foram cinco viagens. Conta feita. Uma delas ele registrou numa fotografia: a Kombi 1966 de portas abertas, carregada de caixas de óculos vintage até o limite.

A Kombi 1966 de Alessandro Damasceno de portas abertas, carregada de caixas de óculos originais vintage

Levou meses para entender o que tinha comprado. Diante da caixa de sapatos, tinha pensado que, se o estoque fosse aquilo, a compra estaria justificada. Não era aquilo. Era muito mais. Dos modelos, mais de oitenta por cento eram femininos, feitos para outros rostos que não o dele. Foi a primeira coisa que o estoque ensinou: no atacado, quem escolhe pelo próprio gosto compra para si, e quem paga o aluguel da loja é o cliente. O acervo começou a operar em 2010, e o primeiro estúdio de fotos foi um celular sobre a pedra de granito da pia da cozinha.

Da pia do apartamento, os óculos foram para a Oscar Freire, naquele momento a rua das lojas mais luxuosas da América Latina, onde os pontos eram negociados em dólar e havia fila de espera para abrir uma loja. No número 720 funcionava uma galeria de novas marcas, e o espaço bem na entrada ele conseguiu do mesmo jeito que tinha comprado o estoque: vendeu ao dono a imagem de um lote de óculos exclusivos antes de mostrar uma única peça. Quando viu os óculos, o dono do espaço disse:

“Você não tem um estoque, tem um tesouro.”

Estoque e tesouro são a mesma mercadoria vista por contadores diferentes. Um calcula quanto custa deixá-la parada. O outro, o que o tempo fez com ela enquanto ninguém olhava.

Para o público, o ponto era uma loja. Para ele, era uma vitrine de atacado, e a ideia vinha de cinco anos antes. Quando começou a vender óculos, entrava em lojas e salões de cabeleireiro apresentando-se como representante de uma importadora de design italiano, atrás de quem aceitasse venda consignada. Abria a mala de mostruário, juntava gente em volta, e as clientes o convenciam a vender ali mesmo, um par para cada uma. Numa tarde o mostruário ia embora. Naquele tempo, ele fingia atacado para vender no varejo. Com o vintage, passou a fingir varejo para vender no atacado. Diversos negócios saíram daquele ponto. O mais inusitado entrou pela porta: uma compradora chinesa, hospedada num hotel da rua e acompanhada de segurança. Comprou mais de mil peças escolhidas a dedo, pagou em dólar e levou o lote para Nova York.

O vintage tinha outro público e outra regra. Óculos de linha se vendiam por quantidade. No vintage, quanto mais exótico e exclusivo, melhor.

Bastava sair da galeria para ver o resto da operação. Virando da Oscar Freire e subindo na Augusta, a primeira galeria à esquerda vendia os óculos dele. Dois quarteirões acima, as lojas de vintage dos dois lados da rua também. Do outro lado da Paulista, as lojas da Augusta revendiam os mesmos óculos, e no shopping da esquina, o vendedor das exposições de domingo também. Aos sábados, as lojas em volta da Praça Benedito Calixto. Na Vila Madalena, as mais descoladas, entre dezenas de bares. Mais tarde vieram lojas de outros estados. Nos eventos, perguntavam por onde andava. Andava em todos esses lugares ao mesmo tempo, vendendo no atacado a lojistas que ofereciam os óculos com a marca deles, e a conta era simples. Para estar em tantos lugares, era preciso variedade, quantidade à pronta entrega e produto exclusivo, e ele tinha os três por causa de uma caixa de sapatos com dezoito amostras. O nome dele saiu do balcão e foi trabalhar dentro da marca dos outros.

Depois vieram outros lotes, partidas somadas ao que já existia. Com o tempo a direção se inverteu, e passaram a procurá-lo para oferecer mais vintage e new old stock, peças da época que nunca foram usadas. Ele nunca soube direito como o encontravam.

Escolher ficou para depois e não terminou. Mais de oitocentos modelos e suas variantes de cor, separados, inspecionados, higienizados, fotografados e reembalados fase por fase, da pia da cozinha até hoje. Passaram pelo acervo o aviador tradicional, os espelhados e os de lente clássica, os gatinhos dos anos 60, os oversized setentistas masculinos e femininos, os californianos dos anos 80, os flat top, os esportivos wrap, os minimalistas dos anos 90 em metal e acetato, o social masculino, o da vovó, o das crianças e até o flexível sem nenhuma peça de metal, feito para o bebê. Uns giram o caixa, outros dão estilo à loja e esperam o cliente certo. Com tempo, método e com o público certo, todo modelo vende.

O acervo de 2010 · 95

Desde 2010, mais de cinquenta mil óculos originais vintage passaram pelas mãos de Alessandro Damasceno.

50.000+

óculos originais vintage, desde 2010.